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11.1.18

Eu só queria ter sido menino

Bom, pelo menos eu quis. E muito. E nada tinha a ver em como eu me via, eu não via problema em ser uma menina, até me impedirem de ser a menina que eu era.

Etiquetas, organização, estudo, serviços domésticos, ficar calada, sentar direito, desce da árvore, pulou o muro de novo?. Os dias eram assim, e eu só era uma criança. Sem medos e receios, era bem confiante, sabia o que queria. Brincar e aprender. 

Tava tudo bem, tudo bom até eu pedir um estilingue. Sei lá porque eu queria um estilingue, com certeza não iria acertar as lagartixas, eu nunca faria isso com nenhum bichinho, mas eu queria um estilingue. Meu pai disse não. Eu perguntei por quê. E ele disse que não. Eu insisti. E ele disse que era porque eu era menina. 

- Meninas não brincam com estilingue - ele disse.

- Ué, porquê? - queria entender.

- Porque não - ele sempre gostou muito dessa palavra, nunca perguntei mas suspeito que seja a preferida dele. Mas acho que era só para mim. 

Quado meu irmão nasceu e cresceu e ainda era mais novo do que eu quando comparado a mim na época do estilingue, ele nem pensava em estilingue, meu pai comprou um para ele. Na feira. Que fica em cima de uma ladeira enorme. Ele foi lá comprar um estilingue pro meu irmão que nem havia pedido nada do tipo. Nem teve a escolha de dizer um "não", ele já foi dizendo "sim" sem precisar de escolhas. Mas pro meu irmão. Não para mim.

Eu sou uma ótima companhia, tenho certeza, pois meu pai sempre me chamava para sair e eu adorava ir. Ele me levava na bicicleta pela BR, pelo caminho a gente tomava água de coco que ele comprava. Ele também gostava de andar para vários outros lugares e me chamava, e se não chamasse eu me oferecia. Até que chegou o dia que ele não me chamou mais. Chamou meu irmão, que não queria ir e até chorava às vezes para ficar em casa. Disse que eu tinha que ficar em casa para arrumá-la. Tinha que aprender. Mesmo eu pedindo ele não deixava mais eu ir.

Hoje meu irmão é mais velho que eu quando comparado a mim naquela época e o máximo que ele faz dentro de casa é levar a cachorra para fazer xixi. Não tínhamos cachorros quando eu era mais nova, mas tinha, e continua tendo, toda aquela sujeira e bagunça e que devia ter que aprender a limpar e arrumar. Mas só eu, não ele.

Nunca pratiquei esportes ou fui levada pelos meus pais para fazer qualquer coisa prazerosa e que exigia desenvolver o meu físico. Meu pai só queria que eu estudasse e arrumasse a casa. Ele tinha, e talvez ainda tenha, uma fixação pela arrumação da casa. Mas só comigo. Ou minha mãe. Já meu irmão sempre jogou bola, desde que ele era pequeno e só sabia andar tinha uma bola bem grande para ele chutar. Eu tinha uma bola bem pequena que não sei de onde veio que eu brincava com meu tio. Uma vez até arranquei um corinho do dedo chutando o chão. Depois que ficou bom eu voltei a brincar de novo. Não sei onde a bola foi parar. Ela era bem velha.

Meu irmão participou de escolinhas. Uma vez ele ia para duas na semana. Meu pai levava e trazia. Enquanto isso eu estava em casa ou na escola. Estudando e arrumando. Estudando e arrumando.

Sempre fui boa aluna, nunca reprovei e só fiquei em recuperação uma vez por causa de um décimo. Chorei muito mas rapidinho eu passei e nunca mais repeti esse erro. É ruim demais recuperação. Quando eu pedia ao meu pai para praticar esportes ou fazer algo, como ballet e artes marciais, ele dizia que eu precisava estudar para conseguir o que eu queria, e eu estudava. Meu irmão nunca precisou estudar para conseguir essas coisas, ele nunca gostou de estudar,. Na verdade, já ficou em recuperação várias vezes e sempre gostou de inventar desculpas para não ir para a aula. Mas sempre fez esporte. 

Eu não entendia porque eu estudava e nada mudava, nunca mudou, enquanto eu estava crescendo e só meu irmão podia fazer coisas mais interessantes.

Fui a uma aula de ballet mas só uma mesmo. Foi muito legal, não sei porque não me levaram mais vezes. E toda vez que eu pedi para fazer alguma arte marcial meu pai dava uma desculpa.

- Não sei onde ensinam - então eu explicava onde.

- É muito caro - então eu achava um lugar que era só vinte e cinco reais por mês.

- Só tem menino, isso não é coisa de menina - ele não conseguiu encontrar outra desculpa, eu acho.

- É mesmo, painho, porque eu sempre joguei bola, enquanto Bruna nunca pôde fazer esporte? - meu irmão perguntou uma vez. Não lembro o que ele respondeu. Nada nunca mudou porque eu era uma menina

Eu só tenho que estudar e arrumar, estudar e arrumar. 

Minha coragem e confiança foi se esvaindo. Sinto que perdi um pouco (muito?) de toda aquela vivacidade que eu tinha quando menina. 

Hoje sou mulher. Uma mulher à sombra do que poderia ter sido. Com tantas amarras colocadas que nem mesmo em outra casa, distante de tudo aquilo, consigo me desvencilhar dos "nãos" impostos no passado. Hoje sou eu que me prendo e me cerco: Não posso. Não consigo. Não tá bom o suficiente. Deu errado, isso não é para mim. Não tá arrumado como deveria. A ansiedade domina e então... tudo para, o mundo se fecha ao meu redor e eu só consigo ficar pensando pensando pensando sempre pensando em como não faço nada direito, nada bom. Menina ruim.

Eu só queria ter sido menino.

21 comentários:

  1. Toda a história parece tirada de um livro meio antigo de biblioteca. A história é triste mas foi escrita muito bem. Também noto certas diferenças de meus pais em relação a mim e meu irmão, que é mais novo também. Mas não são tantas assim, são mais nas coisas que eles falam (como aquelas "que nem menina", que eu questiono dizendo que nunca fiz assim ou porquê tem que ser assim), eles exigem que meu irmão façam as os afazeres domésticos e cobram bastante dele na escola (que também não gosto de ir).

    Tu pode fazer o que tu quiser, não importam o que os outros digam (mesmo que sejam teus pais).

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    1. Parece meio antigo né, infelizmente não é. Que bom que seus pais não tratam vocês tão diferentes assim. Não gostar de ir para a escola é super de boa, bem comum, o ruim é quando isso é cobrado de um e do outro não, onde o estudo é impetilho para um e pro outro não, sabe? Meus pais também até cobram do meu irmão, mas nunca o impediram de fazer nada, como se nunca fosse o suficiente todo aquele estudo, mas só para um lado, usado apenas para impedir que eu fizesse qualquer coisa, entende?
      Obrigada pelo carinho e pelo comentário <3

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  2. É engraçado como essas imposições do começo da nossa vida nos marcam para o resto dela, né? E o pior é que o assunto retratado no texto é algo que nos permeia em qualquer ambiente... É aquela coisa, né? "Quantas coisas você já deixou de fazer só por ser mulher"?

    Texto ótimo. Abraços!

    As moscas na janela

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    1. Pois é, Larissa...
      Sendo elogiada por você!? haha zerei a vida <3

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  3. adorei o texto, apesar de ser triste pensar que até hoje isso acontece em várias famílias. eu cresci sendo filha única, e agradeço por minha família sempre ter sido liberal comigo no sentido de brincar como eu quisesse. brinquei com 'coisas de menino' e 'coisas de menina', e na minha família isso nem tinha diferença.

    você escreve muito bem, adorei conhecer o blog :)

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    1. Triste né. Que bom que não houve diferenciação pra você, isso é tãoo bom.
      Obrigada pelo carinho, de coração, e volte mais vezes <3

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Aqui em casa somos em quatro meninas, mas as vezes tbm tem essa de uma não poder fazer tal coisa e não sei oq. Mas tirando isso, meus pais sempre deixou a gente fazer tudo ( quase tudo). Quando eu tinha 13 para 14 anos, amava jogar bola, minha mãe sempre deixou eu ir em jogos, treinos em escolas, mas nunca viajar para outra cidade ir jogar. As vezes penso que minha mãe e meu pai foi maravilhosos, pois vejo alguns que proíbe a garota de fazer oque ama com medo do '' padrão'' tipo a menina pode fazer isso, o menino pode fazer aquilo, mas nunca a mesma coisa.

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    1. Que bom que nunca passou por isso, é realmente um alívio, deve ser ótimo...

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  6. Que texto <33

    é triste pensar que isso realmente acontece. Tenho amigas que são privadas de estudarem e fazerem o que querem porque precisam ficar em casa arrumando e limpando enquanto os irmãos sentam e assistem tv. Eu, felizmente, nunca tive esse problema.
    É realmente muito triste quando vemos isso acontecer :(

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    1. Nossa, que mau. Graças que você nunca passou por isso, deve ter sido ótimo...

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  7. Esse texto me faz pensar em muitas coisas da minha criação. A gente cresce ouvindo que, por ser menina, não pode fazer tal coisa. E o pior é que, se formos ver, nem é culpa dos nossos pais: eles foram criados assim também... Minha família não é tão extrema assim, mas fico triste de pensar que muitas garotas passam por isso. Acho que esse tipo de situação só mostra o quão necessário é o feminismo!

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    1. Pois é, eles foram criados assim e não aceitam a mudança, só querem estar certos, tá aí o pecado, acreditar que possuem a certeza por serem mais velhos e seguir cometendo um erro por isso. Uma pena, quem sofre é a próxima geração...

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  8. Esse texto me lembrou, no mínimo, de 3 pessoas diferentes que eu conheço que passam (ou já passaram) exatamente por estas situações. :( E infelizmente isso é normal, a imposição na infância (e durante o resto de nossas vidas) sobre as "coisas de menino" e "coisas de menina". E é incrível como que estas imposições na nossa infância afetam de uma forma absurda na nossa vida adulta, né?

    E depois falam que não precisamos do feminismo. :(

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    1. É realmente muito triste, Aninha...
      O que nos resta é tentar lidar com isso depois, né? E quando as pessoas não percebem o mal que causou a elas e decidem perpetuar? Muito triste :c

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  9. Olá Bruna,

    Em casa somos em três meninas, o único item que meus pais solicitaram era para chegar 00h em casa. hahaha Justo no melhor da festa íamos embora dos lugares.. mas a direção de menino e menina nunca aconteceu em casa.. hoje em dia a minha sobrinha de 2 anos tem brinquedos unisex e olha ela gosta de brincar de fazendinha ao invés de bonecas.. mas, ela brinca com bonecas também, mas meus pais nunca foi duro com ela, de que tal coisa é de menino ou menina. Talvez, pode ser o fato da educação que o seu pai recebeu antigamente e ele querer repassar para você e seu irmão.

    Um beijo,

    My Pure Style x My Instagram x My Facebook 

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  10. Oi Bruna, tudo bem? Aqui em casa somos em três meninas. Crescemos em cidade pequena então era bem comum ficarmos na rua, brincarmos com outros meninos, aprendi subir em muros, jogar bolinha de gude, polícia/ladrão, e muitas outras brincadeiras que costumam dizer que eram somente de meninos. Mas nunca me importei, gostava de ser daquele jeito, gostava de me sentir livre. Acredito que cada um deve fazer aquilo que se sente bem, aquilo que faz feliz. Liberdade é nosso maior presente. Beijos, Érika =^.^=

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  11. Engraçado como é essa diferença entre o que é coisa de menino e de menino. Sempre tendo que respeitar um padrão como se isso fosse construir o que somos. Muito bom seu post, nos faz refletir e relembrar situações. bjoo

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  12. É triste ver como esse estereótipo retrógrado nos marca de forma ruim. Também nunca entendi porque certas coisas me eram privadas, enquanto outras eram minhas obrigações.

    Hoje, vivo na politica de que posso fazer tudo o que quiser, as vezes bato de frente com minha família em relação a isso, mas é quem sou e não posso mudar isso!

    Beijos!

    Mari Barros do Blog Diversamente

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  13. Nossa, Bruna, eu fui lendo cada palavra e me identificando tanto! Também sou a filha mais velha e sofri muito com o "estudar e arrumar" enquanto meu irmão tinha todas as regalias. Já discuti e ainda discuto muito com meu pai a ideia de que só as mulheres devem ser responsáveis pela limpeza e organização de uma casa em que todos vivem - felizmente tenho tido resultados e ele está começando a tentar ajudar.
    Literalize-se

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  14. Esse texto me deixou triste de um jeito... e é incrivelmente péssimo como nós mulheres nos identificamos lendo ele. Força pra gente, pra crescermos e nos desvincilharmos sozinhas dessas amarras :(

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Oi, obrigada por vir e volte mais vezes ♥

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